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Discernindo o Tempo

Há momentos na vida em que o tempo parece nos desafiar.
Não pelo que ele tira, mas pelo que ele exige: coragem para continuar.

Aos 62 anos, decidi entrar na faculdade de Direito.
Alguns chamariam de loucura, outros de ousadia.
Eu chamo de vida pulsando, mesmo depois das perdas.

Antes disso, estudei Arquitetura, Engenharia de Segurança e Teologia — sempre buscando compreender o sentido das coisas, das construções, das pessoas, de Deus.
E durante muitos anos, fui pastor, dedicando minha vida à causa de Cristo e ao cuidado das pessoas.

Mas nada me preparou para o tempo da perda.
Quando minha esposa adoeceu com câncer, o chão se abriu.
E o que mais doeu não foi apenas a doença, mas o abandono.
Mais de quatrocentas pessoas frequentavam minha casa, e quando o sofrimento chegou, elas fugiram como ratos — com medo que eu pedisse ajuda.

No fim, quem ficou foram um sheilke e um pai de santo, amigos de verdade, que caminharam comigo durante aqueles longos cinco anos de tratamento.
Eles oraram comigo, choraram comigo e me ajudaram a não perder a fé.
E foi ali que aprendi algo profundo: às vezes, vejo mais de Deus em quem não se diz cristão do que em muitos que se abrigam atrás da religião.
Porque Deus não cabe em templos — Ele cabe no amor vivido, na compaixão sincera.

Durante aquele tempo, vendi todos os meus bens para pagar o tratamento.
Fiz tudo o que o amor mandava, mas não deu certo.
E se ela tivesse superado o câncer, no dia 26 completaríamos 40 anos de casados.
Quatro décadas de amor, parceria e fé — um amor que não acabou, apenas mudou de forma.

O tempo e a dor me ensinaram que o amor verdadeiro não termina,
ele apenas se transforma em saudade que edifica.

Mesmo assim, o tempo — esse grande mestre — foi me ensinando algo novo:
que a dor não é o fim, mas o lugar onde nascem os recomeços mais sinceros.
Entre livros e leis, encontrei um novo caminho, não para apagar o que vivi,
mas para transformar o que restou em algo que possa servir aos outros.

Hoje, atuo como perito judicial e assistente técnico nas áreas de Engenharia Legal e Segurança do Trabalho.
Dou palestras, faço mentoria para jovens peritos e descobri que compartilhar o que aprendi ao longo da vida é também uma forma de servir.

Mas nem tudo é fácil.
Às vezes, na faculdade, sinto o peso do etaris­mo — aquele olhar que questiona o que um homem da minha idade ainda faz ali.
Há piadas sutis, silêncios disfarçados e uma certa pressa em desvalorizar quem tem mais tempo de estrada.
Já pensei em desistir.
Em deixar o curso, em silenciar o sonho.

Mas então lembro que o Direito é mais do que um diploma —
é uma forma de lutar, inclusive contra as injustiças que tentam nos calar.
O etaris­mo não fere apenas com palavras; fere com invisibilidade.
Mas cada vez que escolho permanecer, escolho resistir.
E essa resistência, silenciosa e firme, é o meu protesto.

O que alguns veem como “tempo demais”, eu vejo como tempo vivido
e isso não se perde, se soma.
Porque a sabedoria não envelhece; amadurece.

Ainda há dias em que o desânimo chega sem ser convidado,
em que penso em parar tudo.
Mas então lembro que Deus não desperdiça histórias
Ele as redireciona.
Tudo o que vivi — o amor, a perda, o silêncio, o abandono e o estudo —
faz parte de um propósito maior, que talvez ainda esteja sendo escrito.

Hoje, sigo discernindo o tempo.
Não com pressa, mas com fé.
Porque cada amanhecer é um convite para continuar acreditando
que a vida, mesmo ferida, ainda floresce. 🌹

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