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FANTASIADO DE MIM MESMO

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Neste Carnaval me fantasiarei de mim mesmo. Arrancarei todos os adornos e máscaras que me disfarçam aos olhos alheios: a postura arrogante, o olhar altivo, a função que me faz sentir importante, a roupa que me enfeita a personalidade, a verdade da qual me acho dono… Desgravatado, descalço, desgarrado do trio elétrico, buscarei um lugar para embriagar-me de sonhos e de utopias. O lobo habitando com o cordeiro, as lágrimas dos que sofrem sendo enxugadas, nem pranto nem dor em parte alguma, todos e todas na mesma mesa, batucando a comunhão, vivendo a integridade que é nos unirmos uns aos outros em amor e solidariedade, visualizando, como na relevação do Apocalipse, um mundo novo de justiça e de paz (Ap 21).

Do coração extrairei todas as pedras que lhe encobrem a textura de carne: a ira e o ódio, a mágoa e o ciúme, a inveja e a indiferença. Cantarei o samba-enredo das bem-aventuranças e trarei novidades, notícias alvissareiras aos que padecem de desesperança.
Desnudado desses artifícios que projetam de mim um ser humano falso e ambíguo, ou seja, um simulacro, hei de descer do pedestal que me ampara a elevada autoestima para cortar as asas de minha fraqueza, minha insegurança, meus temores. Evitarei assim gravar naquela plaquinha dos túmulos nos cemitérios, o epitáfio, algo que eu não fui ou não sou.
Não abominarei minha acidental condição humana, tão frágil e limitada. Despojado dos fantasmas nos quais me espelho, sairei livre e solto no bloco Unidos dos Insensatos. É verdade! Reconhecei os meus erros como o Salmista ao dizer: “Porque eu conheço as minhas trangressões e o meu pecado está sempre diante de mim (Salmo 51. 3). Exibirei o meu rosto lavado com todas as rugas gravadas por minha história de vida. Não me envergonharei dos traços irregulares do meu corpo nem cobrirei a cabeça para esconder meus cabelos brancos, alvejados.
Neste Carnaval hei de participar do desfile das escolas de sabedoria. De outras religiões, como o Budismo, por exemplo, deixarei calar as vozes que tanto gritam dentro de mim, e pedirei a outros que me ensinem o caminho do equilíbrio. Ficarei atento as palavras de profetas e profetizas, da Bíblia e da vida, homens e mulheres, jovens e idosos, que trilharam nos blocos e nas alas da vida, cantando a justiça, o amor e a reconciliação. Até mesmo as palavras mais fortes e contudentes deles, que me ferem e me inquietam, vou ouvir: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos (religiosos), porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Amos 5. 23 e 24). Farei coro aos magníficos clamores e canções evangélicas por justiça entoadas por Maria, como aquela que proclama: “O Senhor derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes” e “dispersou os que no coração, alimentavam pensamentos soberbos”, “encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos” (Lucas 1. 46-53).
Inebriado pelo vinho de Caná da Galiléia, desfilarei no carro alegórico das espiritualidades místicas, plurais, amorosas, como a de João Batista, por exemplo, e me deixarei conduzir pelas inescrutáveis veredas da meditação. Ao carro abre-alas convidarei todos os que chamamos de incrédulos mas que professam uma profunda fé na vida.
Das palavras de Jesus, o melhor enredo para este ano será o das bem-aventuranças: “Felizes os humildes porque deles é o reino dos ceús”, “felizes os que choram porque serão consolados”, “felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão fartos”, “felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”… felizes também os pacificadores, os perseguidos por causa de suas ideias políticas e religiosas, os limpos de coração, os mansos… Alegrem-se neste Carnaval “porque é grande o vosso galardão”. Dez! Nota Dez!
Assim, subirei as ladeiras de Assis para saudar São Francisco, aquele que ousou se desfantasiar por completo, e cruzarei as muralhas de Ávila para beijar as mãos daquela que me instrui nas vias da profundência e da espiritualidade autêntica. Ouvirei a voz de Martin Luther King, pastor batista, que foi um profeta no seu tempo rompendo as barreiras da divisão e do racismo. Também a de Malcon X, aquele do filme, que foi radical em seus propósitos.
Quero muito júbilo neste Carnaval, festa da carne transfigurada pela alegria do espírito e transubstanciada pela sacralidade que a impregna. Que seja festa de sorriso d’alma e da partilha perdulária e afetiva de todos os meus bens materiais e simbólicos. É como no conhecido filme “A Festa de Babette” ou como no dia-a dia das primeiras comunidades cristãs, conforme nos revela o livro dos Atos dos Apóstolos.
Nesta louvação de Momo e outros reis, não serei pierrô ou colombina, palhaço ou pirata. Liberto de máscaras e fantasias, ousarei exibir na Praça da Apoteose a nudez de meu lado avesso. Eu mesmo, nas minhas muitas contradições e também em algumas coisas boas que faço. Que a comissão julgadora não olhe para os erros das alas de minha vida, para as fantasias desfeitas pelos pisões e empurrões sofridos, para o ritmo atravessado da bateria diante da dor de todas as alas, especialmente as últimas. Que a nota não venha pelo carro quebrado pela pressa, pois não paramos, não observamos o nosso redor, não somos sensíveis ao outro e à natureza, que tantas coisas boas nos oferecem. Assim, nos esquecemos que “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir” e, que a escola campeã é aquela que ensina, como diz a mesma canção, que o ponto do desfile “não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. (Mas) é sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu. É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações, e assim ter amigos contigo em todas as situações”.
Ah, como seria bom que nos carros alegóricos se mostrasse a integridade de Barnabé, por exemplo (Atos 4.36)! Ele, “homem bom e piedoso, cheio de temor e fé, homem de Deus”, como diz a canção, foi quem disse, emprestando a sua voz para Deus, que “não fica bem a gente passar bem e o outro caristia”. E tantos outros exemplos da Bíblia e da vida, que temos desfilado por aqui… Neste Carnaval, haverão de contemplar esta Apoteose, aqueles e aquelas que, livres dos óculos da ilusão, abrirem os olhos da empatia e do amor gratuito e solidário.
Quando o som agônico da cuíca se calar no irromper da alvorada, desfantasiado de mim mesmo, hei de sambar, em reverentes rodopios, em torno do Mestre-sala: Aquele que nos primórdios do tempo, quando nada havia, quebrou a solidão trinitária no exuberante baile, enfeitado de confetes e serpentinas que, iluminados pelo brilho dos fogos, se fizeram estrelas e galáxias para marcar o desfile progressivo da criação, da mãe natureza que sempre nos acolheu com carinho.
Então a vida irromperá na avenida em todo o seu esplendor, e a multidão verá que não é mera alegoria.
Que Deus nos abençoe! E que sejamos nós mesmos, mas sempre em constante e em profunda evolução nesta avenida da vida. Amém!

Claudio Ribeiro

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