Textos

O COWBOY DE SUNGA E O PREGADOR DE RUA

22181531_10155895468601318_4518444929055260744_o.jpg
Passando pela esquina mais famosa do mundo percebi que o número de “artistas de rua” aumentou desde a última vez que estive aqui. Não demorou muito para eu avistar o cowyboy americano de sunga, tocando seu violão para turistas curiosos com suas câmeras e celulares prontos para registrarem tudo sob as luzes cintilantes e os gigantes painéis de mídia. Logo percebo que ele não está só; ganhou duas companheiras, cowgirls de biquini e com as letras NY pintadas em suas nádegas também disputando a atenção e os cliques dos turistas. Então vejo um imitador do Trump que, não muito longe do homem (ou mulher) vestido de demônio da Tasmania, tenta se fazer ouvir entre buzinas, músicas, ruídos e línguas de várias partes do mundo: Make America great again! (algo como “Faça a América famosa novamente”).

Atordoado com a poluição visual e tentando não me perder em meio a multidão, ouço outra voz que também disputa o espaço e a atenção dos turistas: Jesus is the only hope! (Jesus é a única esperança). Olho na direção de onde veio a voz e encontro um homem com uma Bíblia na mão que continua pregando: “Só dois caminhos importam: um que leva para a vida e outro para a morte…” Quando finalmente chego do outro lado do quarteirão, longe da multidão, as palavras do pregador ainda ecoam em meus ouvidos.

Refletindo sobre o encontro com o pregador de rua lembrei-me de quando, adolescente ainda, tive minha experiência de pregar no largo São Bento em São Paulo. Pregar na rua parecia-me mais um teste a minha coragem e compromisso, do que uma atividade evangelizadora eficaz. “Evidentemente que Deus pode usar esse método de comunicar a mensagem e possivelmente nos surpreenderemos no Reino vindouro com histórias de homens e mulheres que ouviram a mensagem da salvação por meio de tais pregadores”, pensava. Mas confesso que imaginava se haveria alguma maneira mais atrativa de evangelizar, onde eu não tivesse que sentir-me tão vulnerável. Ao mesmo tempo, penso que minha ideia de evangelização mais atrativa geralmente pode servir como desculpa para que eu nunca enfrente o fato que evangelização envolve coragem, superação do medo de rejeição e disposição a ser rotulado pejorativamente. Sempre foi assim, e sempre será.

O evangelho é boas notícias para os que creem, mas é uma ofensa para quem não crê. Por esse motivo, os apóstolos Pedro e João, parecem menos preocupados com a possibilidade de perseguição e sofrimento do que a necessidade de ousadia quando oraram: “Senhor, considera as ameaças deles e capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente” (Atos 4:29). O apóstolo Paulo pediu oração especificamente para que tivesse coragem de falar sobre o mistério do evangelho (Efésios 6.19-20).

Evangelização nunca foi uma tarefa fácil. Não importa se você tem que se levantar diante de uma multidão numa praça, falar com um desconhecido no ônibus, ou compartilhar com um colega de classe, trabalho ou membro de sua família, comunicar o Evangelho sempre envolverá um elemento de coragem. Como diz o artista, “a verdade nunca é sexy”.

O pregador de rua na Time Square lembrou-me que é mais fácil esconder-me atrás de desculpas como “isso não é eficaz”, “não é meu estilo” ou “pregue o Evangelho o tempo todo, se necessário use palavras” (e nunca achar necessário usar palavras), do que enfrentar meus temores e arriscar-me na tarefa de anunciar o Evangelho corajosamente num mundo que tolera qualquer mensagem, menos a ofensa da cruz.

Sandro R. Baggio

Categorias:Textos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s