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UM DIA A MAIS

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por Ziel J.O.Machado

Termina o dia de trabalho. Termina não seria a melhor forma de descrever este momento do dia. A cabeça chega em casa como se fosse uma escrivaninha repleta de papeis e tarefas ainda esperando por sua atenção. Quando olho no espelho, consigo ver, nos meus olhos, o reflexo da tela do seu computador que ficou ligado, me aguardando para o novo dia. Tento quebrar o ritmo, dando uma olhada nas notícias, dando uns likes , resistindo a tentação de entrar em alguns debates, lendo com sofreguidão algumas afirmações, e celebrando aquilo de bom que muitos compartilham. Olho as novas fotos de amigos distantes, com filhos crescidos, alguns com netos e celebro com eles as bondades de Deus em suas vidas. Neste momento, com um tom positivo, é melhor deixar o micro e partir para as orações de final de dia. Me deito.

Ainda de madruga, uma mensagem me desperta; “ minha mãe faleceu, você pode nos acompanhar neste dia?” Ainda sonolento, deixo o repouso físico para buscar o repouso do consolo do Senhor. Com tudo combinado, a mente e coração começam a buscar uma palavra do Senhor para a família. Nisto o whatsapp revela algumas mensagens que necessitam de atenção, oração e cuidado. Vai amanhecendo. Depois das preces, o salmo do dia, o café. É chegado a hora de se debruçar sobre o texto sagrado, pensando no próximo sermão, na próxima aula, no próximo estudo bíblico, no próximo aconselhamento.

O mundo desperta, e com ele as dores também despertam, será que é por isso que se chama desperta-dor? Ao longo do dia ouço a expressão, pastor! Ela sempre vem seguida por uma série de situações que afetam o humor e ampliam os registros no diário de oração. Situações muito variadas, nasceu um bebê, um convite de formatura, uma noticia de perda de emprego, uma viagem de emergência, alguém conseguiu novo trabalho, alguém está desistindo da vida. Chama o Uber, vai até a casa de um, depois ao hospital com outro, aproveita para almoçar com alguém, na volta lembra de comprar um novo livro sobre o tema polêmico do momento. Corre para chegar, e não demora para sair. Reuniões, ah as muitas reuniões!

Meio da tarde, troca de roupa, se dirige ao cemitério para acompanhar a família enlutada. O desafio é transmitir a esperança para todos que estão traumatizados pela realidade da morte, que insiste em dizer que é o fim de tudo. Caminhamos então, da solidariedade na dor a esperança confiante. Assim entregamos a terra aquele a quem ao Senhor já o tínhamos, em gratidão, entregado. No regresso chego à sala de aula, onde olhares ávidos esperam pelas últimas e melhores respostas para os dilemas da terra e dos céus. O desejo de aprender recarregam minhas baterias afinal, ensinar é cuidar, é uma outra maneira de pastorear. Às vezes as lágrimas nos surpreendem, enquanto o Senhor vai nos ministrando no tempo de reflexão em classe.

A noite vai avançando, as trevas vão ganhando intensidade, as conversas que não podem esperar te alcançam, por todos os meios e de todas as formas. Como pastor, de forma reverente, vamos habitando nas dores, acendendo luzes no meio da escuridão dos medos compartilhados. A oração do final do dia ganha uma nova dimensão de intensidade. Recorro a um chá de maçã com canela, o cheiro me faz lembrar a maneira como terminávamos o dia na casa de meus pais. Olho para o porta retrato com a foto deles. Eles já se encontram no Abraço Eterno. Agradeço a Deus em silêncio. Leio as mensagens dos meus filhos; alegrias, preocupações, sonhos e planos. Em silêncio, volto a agradecer, eles são uma benção para além do que imaginei!

Como ainda resta algo de energia, vejo as correspondências e vejo as mensagens. Fico impressionado com a quantidade de coisa que se escreve sobre a igreja; como deve ou não deve ser a igreja, o que a igreja deve apoiar ou não deve apoiar, quais lugares devemos ir e onde devemos evitar, o que devemos ler e o que devemos esquecer, que congressos participar e que encontros nem devo mencionar. Uma quantidade de gente querendo “tutelar” a igreja, e os muitos iluminados que realmente querem definir as “pautas importantes”. Fico me perguntando, de que igreja está gente está falando? O que tem a ver tudo isso com as pessoas reais a quem sou chamado a cuidar? Enquanto penso, minha esposa me chama e pede um comprimido para dor de cabeça. Volto a realidade. Embora me encante debater sobre a Igreja como conceito histórico, teológico ou sociológico (não posso negar minha formação), a igreja a que sou chamado a cuidar não está nos debates, nem nos livros, está nas pessoas reais, vivendo suas dores e alegrias, seus medos e esperanças. Isso desinfla o meu ego debatedor. Me dirijo aos livros e descubro que os olhos estão cansando mais rápido.

Quando percebo, vejo que um novo dia já começou. Preciso repousar pois, em poucas horas, preciso treinar e depois de haver suado; banhado e abençoado, começar tudo de novo. Enquanto isso, a caixa de e-mail vai lotando, o whatsapp apitando, o Facebook provocando, o telefone vibrando mas eu…, eu vou desligando. As preces do fim do dia, feitas, de fato, no início do novo dia, repousam na confiança de que “em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” Salmo 8:4

 Ziel J.O.Machado via Facebook

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